A impressão de que o testemunho quádruplo acerca das palavras e feitos de Jesus, ou seja, os evangelhos intracanônicos de Marcos, Mateus, Lucas e João, oferece e se constitui em um conjunto unitário, harmônico e concordante é uma ilusão. Assim, por exemplo, de acordo com o autor do evangelho de Marcos, o primeiro sinal prodigalizado por Jesus em seu ministério público ocorreu em Cafarnaum, no interior de uma sinagoga, por meio da expulsão de um espírito impuro que atormentava um homem não nomeado pela narrativa (Mc 1,21-28), ao passo que, conforme o autor do evangelho de João, o “início dos sinais”, isto é, Jesus provando a autenticidade de sua missão, ocorreu em Caná da Galiléia, durante um casamento no qual Jesus teria transformado água em vinho (Jo 2,1-12).
E, ao contrário do que se pensa, não é uma percepção moderna a constatação de que as narrativas evangélicas intracanônicas apresentam pontos de convergência e de divergência. Nesse sentido, já no século II E.C., autores cristãos buscavam produzir uma harmonização dos evangelhos. O primeiro a tentar resolver o problema das semelhanças e diferenças existentes entre os evangelhos intracanônicos foi um discípulo de Justino Mártir, o cristão sírio Taciano (c. 110-172), que redigiu uma harmonia dos quatro Evangelhos denominada Diatéssaron, por volta de 150 E.C. , com o propósito de obter um texto único e compreensível.
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