Em seguida, um cristão pouco conhecido, chamado Ammonius de Alexandria (c. 220), precursor das modernas sinopses dos evangelhos, embora usando o termo “harmonia”, buscou listar as passagens paralelas identificáveis nos evangelhos com fins de comparação.
Um outro trabalho importante que visava lidar com as similaridades e as discrepâncias entre os evangelhos intracanônicos foi escrito por Santo Agostinho, intitulado De Consensu Evangelistarum. Sua perspectiva era claramente harmonizadora, intentando demonstrar que os relatos evangélicos não conflitavam ou contradiziam-se entre si. Como, em seu ponto de vista, os evangelhos haviam sido escritos por homens através da ação do Espírito Santo, os relatos não podiam desdizer-se uns aos outros.
No decorrer dos séculos seguintes, várias harmonias dos evangelhos surgiram, adotando invariavelmente a premissa de que os textos podiam ser postos lado a lado e que as divergências notadas não invalidavam a noção de que os textos formavam um todo coerente, único e concordante.
Eis que, em 1776, negando toda relação harmônica entre os evangelhos, Johann Jacob Griesbach, publicou sua Synopsis Evangeliorum Matthaei, Marci et Lucae (STEIN, 1989:23). Griesbach duvidava sinceramente da possibilidade de construir uma “harmonia” dos textos evangélicos, daí porque sua principal proposição, inédita para a época, foi empregar pela primeira vez o termo “sinopse”.
A inovação trazida por Griesbach residiu no fato dele ignorar o evangelho de João e, conseqüentemente, evitar reconciliar as cronologias dos quatro evangelhos. Anos depois, em 1797, Griesbach publicou uma segunda edição de sua Synopsis, em que incluiu João 12,1-8 e 18,1-21,25. Enfim, o trabalho pioneiro de Griesbach tornou-se modelo para os estudos subseqüentes sobre as relações literárias entre os evangelhos intracanônicos.
Foi, portanto, a partir do momento em que se reconheceu a existência de algum tipo de interdependência entre as narrativas evangélicas de Marcos, Mateus, Lucas e João, abandonando-se, por outro lado, qualquer tentativa de produzir-se harmonizações entre elas, que se criaram condições para o surgimento do assim chamado “problema sinótico”.