terça-feira, 27 de julho de 2010

Proposta social do cristianismo primitivo

Existem várias maneiras de iniciar uma discussão acerca da proposta social do cristianismo primitivo. Uma delas consiste em trazer à baila a opinião insuspeita de um adversário das ideias cristãs da primeira hora, o filósofo não-cristão Celso. Escrevendo em algum momento entre 177 e 180 E.C., com o imperador Marco Aurélio já perseguindo os cristãos, esse pensador declarava sobre os adeptos do cristianismo primitivo:

Eis a palavra de ordem deles: para trás quem tem cultura, quem tem sabedoria, quem tem discernimento! […] Mas eis nas praças públicas, suponho eu, aqueles que divulgam seus segredos e pedem esmolas. […] Eis nas casas particulares, cardadores, sapateiros, pisoeiros, pessoas das mais incultas e rudes. Diante de mestres cheios de experiência e discernimento não ousam abrir a boca.

Não obstante todo o seu indisfarçável preconceito de classe, o relato de Celso lança luz sobre as origens sociais dos primeiros convertidos ao judaísmo de Jesus e sua continuação, o cristianismo primitivo. Se forem levadas em conta as evidências irrefutáveis de que a adesão de membros das altas classes ao cristianismo institucionalizado - a continuação do cristianismo primitivo – apenas se verificou na virada do segundo para o terceiro século, conclui-se inelutavelmente que a proposta do judaísmo de Jesus e sua continuação, o cristianismo primitivo, ecoavam mais fortemente entre os marginalizados e excluídos da sociedade.