sábado, 17 de outubro de 2009

Outras tentativas para harmonizar os evangelhos

Em seguida, um cristão pouco conhecido, chamado Ammonius de Alexandria (c. 220), precursor das modernas sinopses dos evangelhos, embora usando o termo “harmonia”, buscou listar as passagens paralelas identificáveis nos evangelhos com fins de comparação.

Um outro trabalho importante que visava lidar com as similaridades e as discrepâncias entre os evangelhos intracanônicos foi escrito por Santo Agostinho, intitulado De Consensu Evangelistarum. Sua perspectiva era claramente harmonizadora, intentando demonstrar que os relatos evangélicos não conflitavam ou contradiziam-se entre si. Como, em seu ponto de vista, os evangelhos haviam sido escritos por homens através da ação do Espírito Santo, os relatos não podiam desdizer-se uns aos outros.

No decorrer dos séculos seguintes, várias harmonias dos evangelhos surgiram, adotando invariavelmente a premissa de que os textos podiam ser postos lado a lado e que as divergências notadas não invalidavam a noção de que os textos formavam um todo coerente, único e concordante.

Eis que, em 1776, negando toda relação harmônica entre os evangelhos, Johann Jacob Griesbach, publicou sua Synopsis Evangeliorum Matthaei, Marci et Lucae (STEIN, 1989:23). Griesbach duvidava sinceramente da possibilidade de construir uma “harmonia” dos textos evangélicos, daí porque sua principal proposição, inédita para a época, foi empregar pela primeira vez o termo “sinopse”.

A inovação trazida por Griesbach residiu no fato dele ignorar o evangelho de João e, conseqüentemente, evitar reconciliar as cronologias dos quatro evangelhos. Anos depois, em 1797, Griesbach publicou uma segunda edição de sua Synopsis, em que incluiu João 12,1-8 e 18,1-21,25. Enfim, o trabalho pioneiro de Griesbach tornou-se modelo para os estudos subseqüentes sobre as relações literárias entre os evangelhos intracanônicos.

Foi, portanto, a partir do momento em que se reconheceu a existência de algum tipo de interdependência entre as narrativas evangélicas de Marcos, Mateus, Lucas e João, abandonando-se, por outro lado, qualquer tentativa de produzir-se harmonizações entre elas, que se criaram condições para o surgimento do assim chamado “problema sinótico”.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Evangelho "Q": um ponto de virada nas origens cristãs

A impressão de que o testemunho quádruplo acerca das palavras e feitos de Jesus, ou seja, os evangelhos intracanônicos de Marcos, Mateus, Lucas e João, oferece e se constitui em um conjunto unitário, harmônico e concordante é uma ilusão. Assim, por exemplo, de acordo com o autor do evangelho de Marcos, o primeiro sinal prodigalizado por Jesus em seu ministério público ocorreu em Cafarnaum, no interior de uma sinagoga, por meio da expulsão de um espírito impuro que atormentava um homem não nomeado pela narrativa (Mc 1,21-28), ao passo que, conforme o autor do evangelho de João, o “início dos sinais”, isto é, Jesus provando a autenticidade de sua missão, ocorreu em Caná da Galiléia, durante um casamento no qual Jesus teria transformado água em vinho (Jo 2,1-12).

E, ao contrário do que se pensa, não é uma percepção moderna a constatação de que as narrativas evangélicas intracanônicas apresentam pontos de convergência e de divergência. Nesse sentido, já no século II E.C., autores cristãos buscavam produzir uma harmonização dos evangelhos. O primeiro a tentar resolver o problema das semelhanças e diferenças existentes entre os evangelhos intracanônicos foi um discípulo de Justino Mártir, o cristão sírio Taciano (c. 110-172), que redigiu uma harmonia dos quatro Evangelhos denominada Diatéssaron, por volta de 150 E.C. , com o propósito de obter um texto único e compreensível.